domingo, 23 de novembro de 2008

Um amanhã possível...

...Quando não mais o verde, e a água for apenas um líquido viscoso, escura e mal cheirosa... Quando o ventre prdre da terra infécta e estéril não mais fizer nascer... Quando o ar pezado e seco nos arder nos olhos e pulmões... Deitaremos tristes e febris nossos corpos esgotados e nossas mentes resentidas em belos e finos colxões de dinheiro. E ali, morreremos inanes, consumidos pelo próprio "ter", enquanto nosso "ser" se esvai no silêncio escuro e vazio do nada eterno.
Um tempo, dois tempos, três tempos passarão... E os filhos dos filhos dos nossos filhos, veram através de instrumentos, e nada mais sentiram pois o tato lhes terá abandonado. Dois furos sem forma definida abrigaram mangueiras com filtros ligadas aos pulmões, e o olfato lhes terá deixado. Os odores serãm apenas palavras. Um tubo sujo e transparente lhes conduzirá a pasta nutritiva até o estômago, mas o paladar não detectará nenhum sabor. O prazer fisico do sexo será somente uma lenda, um mito distante da realidade presente. Nossos descendentes não seram mais que óvulos fecundados artificialmente por um processo seletivo onde a corrupção determinará quem deverá nascer para esse bizarro mundo de estranhezas futuras. Nossa comunicação não passará de gestos articulados com dificuldades e acompanhados de grunhidos grotescos que se assemelharam a gemidos.
...E então, os deuses e o paraíso estaram mais próximos e presentes, pois seremos nossos próprios demônios sobrevivendo no inferno que teremos criado.
Quem dera, fosse diferente.

quinta-feira, 6 de novembro de 2008

O dedo, a Lupa e o Espelho


...E, tal qual o dedo em riste, com que magestosamente apontamos os outros, também, a grossa lupa com a qual os observamos, nunca estão voltadas para nós mesmo, nem o dedo nem a lupa.
...E, todos os erros, falhas e defeitos, são deles, dos outros.
Eles, sempre eles, todos eles. Viz e mesquinhos, estão aquém de nossa honroza grandeza.
Eles, sempre eles, todos eles. Carrascos e monstros, estão além de nossos limites, de nossos domínios.
Mas... Há, e haverá sempre um mas... Embora guardemos a lupa e enluvamos nosso dedo ao cruzar o sacro portal de nossa casa e de nós mesmos, nos deparamos com um belo e decorativo espelho, onde como cegos nos olhamos, e apenas imaginamos o quê e como somos, pois a realidade refletida nos colocaria - a todos - numa tosca fileira de maldades e bestialidades insanas.
Minha casa tem espelho. Salve, salve, salve... A vós outros, incorruptíveis e honrosas criaturas.
Quiçá, quembre-se nossa lupa, e caia nosso dedo. O espelho, o espelho.
Haverá sempre um en nossa parede. A mesma parede invisível e imaterial que nos separa deles, dos outros, do mau. Cá nós os sacros, cobertos de seda carmim, lá, eles, profanos, vestidos de sacos e panos. É assim, é assim.
Eles em pé, nós de joelhos. A lupa, o dedo, o espelho.

terça-feira, 28 de outubro de 2008

Perdidos no nada


Deixai-nos com nossos mórbidos pensamentos. Tua beleza não nos porá a mesa.
Guarda para ti os teus momentos, e para outros tuas certezas. Os elos belos que constrois em teus tormentos, o inebria, mas a nós causa tristeza.
Guardai com vós tuas verdades, que a sós, nós outros ruminamos,
e seguindo caminhamos na incerteza, nas saudades que a própria natueza,
nos dotou, nos legou como ofício.
No teu vício não atentas que queremos,
pelo menos da dúvida o benefício, e das verdades a incerteza.

O melhor dos animais


...E como tudo o mais, nascemos. Crescemos e nos desenvolvemos. Nos adaptamos, aprendemos e inventamos para continuarmos sendo.
Trabalhamos, dormimos, bebemos. Amamos e odiamos, querendo ou não querendo. Enfim, carnívoros que somos nos alimentamos de mortos para vivermos. De cadáveres de outros seres, como os vermes latentes em nós mesmos que mais tarde nos devorarão, a eu, a tu, a nós, como tudo o mais.
É isto que sou? É isto que éis? É isto que somos? E como tudo o mais, não sabemos.

segunda-feira, 20 de outubro de 2008

Nós Outros nós...

Nós, que mal nos conhecemos, e que distorcidos de bons nos vemos, nos outros vemos os ruins. Nós, que perversas almas temos, nem sempre nos entendemos quando nos dizem quem somos.
Nós que, cavalgando o desespero, seremos os derradeiros entre os seres da terra.
Nós que, mergulhados em amarguras, todas as gerações futuras, herdarão nossos cromossomos.
Nos matamos uns aos outros, conquistamos pra ferir. Quantos de fome matamos? Sorrindo em nossos timtins? Enfim nos acasalamos, menos que fazer amor. Somos arquitetos da dor, peritos dos desprazeres, somos desprezíveis seres, vagando tristes e sós. Quem nos salvará de nós, quando cansarmos de ser, quando em vermes consumidos, e assim nós todos perdidos, sem consciência nem vida, quem no todo dará guarida? A terra, mãe que nos enterra. E salvos na natureza restaura-se a beleza na vida, enquanto a morte nos cerra.

sábado, 18 de outubro de 2008

Tempo, tempo, tempo, tempo...

Tempo, tempo, tempo, tempo... Que foi, que é e será... Que vem e se vai, se esvai e escoa em si mesmo, como tênue fumaça no ar, nos deixando pasmos e a esmo. Nele e para ele somos sós e estamos a sós diante dele. A medida de tudo que é e que há. Guarda o esboço da própria existência como um graal perdido, e que em nossa demência insistimos em buscar, embora nunca tenha existido. Para uns rápido, para outros lento... Tempo, tempo, tempo, tempo...

sexta-feira, 17 de outubro de 2008

Morte, Morte, Morte...

Morte, morte, morte... A última fronteira da "realidade". Tão misteriosa e desconhecida, tão inalcansável a experiência que a nossa imaginação sente a necessidade de conceitua-la, de adicionar para além da "realidade" um mundo de imaginações mentais. Quem, se não a religião, a mística e a superstição pode aventurar-se nesse desconhecido, nesse incógnito mundo mental, mas que vem de encontro à negação apovarante do nada? O quê, se não a fé, a esperança e a expectativa pode suprir com "realidades" o vazio, o pavor e o temor do nada? Eu vou morrer! Não vou fazer nenhuma "grande viagem" não vou "partir", não vou "para o andar de cima", não vou "para mais perto de Deus", não vou fazer nenhuma "travessia" ou "transição". Vou morrer! Como você, seu filho, sua mãe, sua esposa e seu melhor amigo. Assim também com os meus. Em menos de cem anos toda a população da terra terá sido trocada, e não seremos mais que retratos velhos e pedaços de recordações esparsas no tempo e cada vez mais e mais distantes das lembranças diárias. Percebemos mesmo o alcance disso? A cada festa de aniversário comemoramos não apenas um ano a mais de vida, mas também um ano a mais da proximidade da morte, inevitável e resoluta. Boa morte para você também.

Sombras de Nós

Contra o vento, contra o tempo, sombras de nós, a sós com rumo incerto. Por certo pensa companhia, e a angústia de ser do dia-a-dia estacam pasmas no deserto. Quem dera as sombras dessa vida tivessem outras sombras por guarida e andassem todas lado-a-lado, passo-a-passo iriam todas sem futuro, caminhado trôpegas no escuru, e no alento da cura das feridas. Mortas vivas somos todas sombras, esses seres, dividindo nossas dores e prazeres sob um céu de criaturas aladas. Para onde, para quê? Para o nada.

quinta-feira, 16 de outubro de 2008

Verbo Exposto

Quantos calam-se diante do próprio pensar. Do medo e da vergonha de dizer. De expor a tragédia dos próprios conceitos e a mesquinhês das próprias atitudes. Tal qual fotografia mutilada têm seus lábios destacados da própria imagem refletida no papel. Falácias é o que dizemos as vezes, quando nada temos a dizer. Pra quem, pra quê? Melhor ficar mudo, pois todos estão surdos.